Michael (2026): Uma homenagem que escolheu o Amor em vez da Verdade e isso tem preço

4.0
de 5
Antoine Fuqua
John Logan

Michael

Distribuidora (Publisher): Lionsgate / Universal Pictures Brasil

Quando entendi que Michael não é uma biografia, mas sim, uma homenagem com recorte editorial muito específico, consigo assistir o filme de outra forma. Não em paz exatamente, mas com clareza sobre o que estou consumindo!

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Poster oficial do Jaffar Jackson - Michael pela Lionsgate
Poster – Lionsgate

Existe um tipo de filme que você assiste sabendo exatamente o que vai encontrar. Não porque você leu os spoilers, mas porque as escolhas criativas já foram anunciadas antes mesmo do lançamento. Michael, a cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, Os Sete Magníficos) e protagonizada pelo sobrinho do cantor, Jaafar Jackson, é exatamente esse tipo de filme. E ainda assim, ele funciona, dependendo muito de onde você está sentado. Eu me explico!

Por que demorei para assistir

Não fui ao cinema. Três motivos concretos: o preço salgado do ingresso nos cinemas atualmente, a cultura do react de ficarem filmado dentro da sala de projeção, cantando junto com o filme e, claro, o medo legítimo de mais uma bomba disfarçada de tributo. Os últimos anos acumularam tantos projetos questionáveis envolvendo a imagem de Michael que a desconfiança vai lá pra cima.

Agora que chegou às plataformas digitais e ao Blu-Ray, pude assistí-lo. E saí com sentimentos divididos, não porque o filme é ruim, mas porque ele é deliberadamente incompleto, e isso importa bastante.

Confira o Trailer de Michael

O que funciona: Ritmo, Emoção e Jaafar

A primeira coisa que precisa ser dita: Jaafar Jackson como Michael adulto é uma das coisas mais desconcertantes de se ver. A semelhança física vai além do esperado, e há momentos em que a presença de cena é genuína. O filme cobre a trajetória do cantor desde os primeiros ensaios com o Jackson 5 nos anos 1960 até a era BAD e a turnê mundial de 1987/88 — e faz isso com um ritmo surpreendentemente fluido para duas horas de material.

Jaffar Jackson é sobrinho Michael Jackson – Imagem: Lionsgate

Nada enrosca. Quando uma cena começa a pesar, ela resolve. Há quase um senso de episódio de série nesse encadeamento: você termina cada bloco querendo saber o que acontece no próximo. É uma escolha narrativa que funciona para quem está disposto a topar o pacto.

As recriações de performances são o ponto alto sem discussão. Human Nature, Bad, e especialmente Billie Jean no especial Motown 25 — quando Michael apresentou o moonwalk ao mundo em 25 de março de 1983 — chegam com a energia que precisam ter. São números de palco dentro de um filme biográfico, e a direção soube aproveitar isso.

A icônica apresentação que mudara tudo para Michael – Na imagem: Jaffar Jackson – Lionsgate

O Acidente da Pepsi: Quando o filme acerta nos fatos

Um dos momentos mais tensos do filme é a reconstituição do acidente durante as gravações do comercial da Pepsi, em 1984. Um erro na pirotecnia fez o couro cabeludo do cantor pegar fogo e as imagens reais do incidente ainda circulam… O filme retrata a cena de forma bastante fiel ao que se conhece do episódio, incluindo membros da equipe apagando as chamas.

O que o filme também acerta é mencionar a indenização recebida por Michael no valor real de US$ 1,5 milhão, que ele doou integralmente para a criação de um centro de tratamento para vítimas de queimaduras em um hospital na Califórnia.

Mas o que o filme omite é crucial: foi a partir desse acidente que Michael passou a usar analgésicos para lidar com as dores crônicas e a perda permanente de parte do cabelo. Segundo relatos do próprio cantor em entrevistas posteriores, foi esse processo que desencadeou a dependência que o acompanharia pelo resto da vida e que eventualmente contribuiu para sua morte em 2009. O filme passa por isso sem tocar no assunto.

Michael (Jaffar Jackson) – Imagem: Lionsgate

Bubbles, uma Lhama, a Girafa e algumas questões cronológicas

Você vai ver Bubbles, o chimpanzé, bem cedo no filme. E uma girafa. E aqui começa a parte que os fãs mais atentos vão notar.

O que é real: Bubbles nasceu em 1983 em um laboratório de pesquisas no Texas. Foi adotado por Michael Jackson ainda filhote e passou a viver inicialmente na casa da família em Encino, Califórnia. A dupla tornou-se inseparável, o chimpanzé viajou para o Japão durante a turnê promocional de 1987, apareceu em sets de videoclipes e em encontros com celebridades. Em 1988, quando Michael se mudou para o Rancho Neverland, Bubbles foi junto. Hoje, com mais de 40 anos (idade avançada para a espécie), ele vive em um santuário para grandes primatas na Flórida.

O que o filme altera: a girafa aparece na tela em um período anterior a 1986. Na vida real, não há evidências de que Michael tenha tido girafas antes de 1988, quando Neverland foi construído como o parque temático particular que abrigaria toda a sua coleção de animais exóticos, que incluía tigres (Thriller e Sabu), lhamas, répteis, aves e, claro, as girafas. A cinebiografia comprime essa linha do tempo para criar a imagem da solidão de Michael cercado de animais desde antes. A intenção narrativa é clara; a precisão histórica, nem tanto.

É por isso que, quando você assiste o filme mostrando Michael conversando com sua lhama durante a tensão de gravar um novo álbum, o momento é emocionalmente verdadeiro, mas deslocado no tempo.

As ausências que dizem mais do que as presenças

Janet Jackson não aparece no filme. Nem Randy, nem Rebbie. A coincidência, notada pela imprensa especializada, é que são exatamente os três irmãos que não assinaram como produtores executivos do projeto. La Toya Jackson foi quem comunicou publicamente que a irmã “declinou gentilmente” do convite.

Janet, vale lembrar, em 1988 já tinha dois álbuns importantes no currículo — Janet Jackson (1982) e Control (1986). Ignorá-la é apagar uma presença musical e familiar relevante do contexto em que Michael estava inserido.

Essa questão levanta algo que o filme nunca resolve: quem controlou a narrativa? O patrimônio de Michael Jackson está envolvido na produção, o que significa que determinadas versões da história são mais convenientes do que outras. Não é incomum em biografias filmadas, mas é algo que o espectador precisa ter em mente.

Jacksons 5 – Imagem: Lionsgate

A Grande omissão: O Terceiro Ato que foi reescrito

O filme passou por refilmagens milionárias antes do lançamento. O motivo: o terceiro ato original incluía referências às acusações de abuso sexual, e a produção se viu num impasse legal, não era possível retratar Jordan Chandler, que alega ter sido abusado por Jackson em 1993, sem o risco de processo.

O resultado é um terceiro ato reescrito que contorna esse período inteiramente. Para quem esperava que o filme encarasse a complexidade do personagem, é uma escolha que define o tom de tudo: Michael é uma homenagem com os ângulos inconvenientes cortados na edição.

A mensagem que atravessa tudo

Dito isso (e é importante que esteja dito), tem algo no filme que funciona emocionalmente para além da checagem de fatos.

A obsessão de Michael por Peter Pan não é inventada. A relação com a infância interrompida, com a impossibilidade de ser criança enquanto era obrigado a sustentar uma imagem e uma família, com a mentira sistemática sobre a própria idade para preservar a imagem do garotinho de voz única, tudo isso tem base em relatos e entrevistas reais. O filme transforma essa psicologia em fio narrativo central, e acerta na leitura.

A cena em que ele assiste filmes da Disney no quarto, a maneira como enxerga o pai como o Capitão Gancho, a necessidade de criar um mundo paralelo em Neverland onde a infância que não teve pudesse existir em loop, isso não foi florear por florear. Foi interpretação possível, e o cinema tem esse direito.

Momentos icônicos são bem apresentados no filme – Imagem: Lionsgate

Quando entendi que Michael não é uma biografia, mas sim, uma homenagem com recorte editorial muito específico, consigo assistir o filme de outra forma. Não em paz exatamente, mas com clareza sobre o que estou consumindo!

Veredicto

Michael é um filme para fãs que já fizeram as pazes com o legado complicado do cantor e querem ver as músicas bem executadas na tela grande, ou nas pequenas… É arrepiante e empolgante quando recria performances. É emocionalmente coerente quando trata da infância perdida e da relação com Joe Jackson (Colman Domingo, que entrega uma das melhores atuações do elenco).

Colman Domingo é o ator que interpreta o pai de Michael, Joseph Jackson. Ele é um ótimo ator que acaba se destacando em todas as cenas! – Imagem: Lionsgate

Mas é também um filme produzido com interesses envolvidos, que omite dependências, suaviza acusações, corta irmãos e reescreve cronologias. Não foi tudo uma mentira, é uma seleção.

Assista sabendo disso. O filme vai fazer você querer abrir o YouTube no meio da noite para rever os clipes. Essa parte, pelo menos, é completamente honesta.

Ficha técnica: Michael (2026) | Direção: Antoine Fuqua | Roteiro: John Logan | Com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller | Duração: aprox. 2h10 | Distribuição: Lionsgate / Universal Pictures Brasil

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