Se você chegou até aqui, provavelmente já passou horas assistindo análises no YouTube, leu vários posts prometendo que esse pequenininho é o portátil perfeito para reviver os clássicos, e agora está com a lombriga comendo solta querendo um. Eu entendo. Passei exatamente por isso.
Mas diferente de boa parte do que você vai encontrar por aí — análises patrocinadas, vídeos gravados lindos que escondem o áudio pipocando nos jogos, e títulos exagerados prometendo que ele “roda tudo” — aqui você vai ter a versão completa. A boa, a ruim, e o que aconteceu quando eu comprei o primeiro, devolvi, e comprei de novo.
Foram mais de seis meses com esse portátil na mão até eu conseguir falar com firmeza sobre ele. Então bora lá.
O que é o R36S (e o R36XX)?
O R36S é um portátil de emulação que faz sucesso tanto na comunidade retrô quanto entre gamers mais atuais. A promessa é entregar um poder de emulação surpreendente pelo seu custo-benefício — e, em partes, ela se cumpre.
Com um design que lembra um Game Boy DMG no “modo turbo”, ele conta com botões de ombro L1, L2, R1 e R2, dois analógicos (muito parecidos com os do Nintendo Switch), tela IPS de 3,5 polegadas, com resolução de 640×480, totalmente laminada (OCA). Proporção retro 4:3 com verdadeira cores vivas e pixels nítidos. Seu processador é um Rockchip RK3326 (Quad-Core 1.5GHz), que promete desfrutar de desempenho superior em títulos para o PS1, N64, Dreamcast e PSP. Jogabilidade em velocidade original sem quedas de quadros, graças aos seus 1GB DDR3L de memória RAM com GPU Mali-G31 MP2 e roda um sistema baseado em Linux. Isso abre um universo de possibilidades: a comunidade gamer não só cria jogos para esses portáteis como compila suas próprias distribuições de Linux focadas em emulação retrô.
O R36XX surgiu como uma evolução direta do R36S. Mesmo tamanho, mesmas entradas, mesmos botões — mas com Wi-Fi embutido (sem precisar de adaptador USB), botões de ombro com encaixe ligeiramente melhor para os dedos indicadores, e uma carcaça com aquela vibe Cyberpunk: desehos de riscos brancos atravessados no azul transparente, bem anos 2000. Visualmente mais personalizado, funcionalmente o mesmo produto. Para todos os efeitos dos guias aqui no site, eles são intercambiáveis.
A tela é um dos maiores trunfos dele
A tela IPS do R36S/R36XX tem um contraste lindo e brilhante. Os pixels ficam “crocantes” e apertados — independente do ângulo, a imagem é nítida, sem borrões. A proporção 4:3 com resolução 640×480 faz com que os jogos retrô se encaixem perfeitamente.
Jogos de Game Boy, GBA e Super Nintendo ficam lindos nela — mesmo com as bordas pretas ao redor, o RetroArch oferece bordas personalizadas que preenchem toda a tela e ficam incríveis. Jogos de Arcade e PlayStation 1 encaixam perfeitamente com pixels perfeitos, faz qualquer um babar!
Um detalhe importante:
Cada leva de fabricação pode vir com um modelo diferente de tela. Isso não é frescura, é um ponto técnico real. O sistema operacional precisa identificar os drivers de vídeo corretos para exibir as imagens do jeito certo. É por isso que existe um arquivo dentro do cartão SD (geralmente com extensão .dtb na raiz, como rk3326-rg351mp-linux.dtb) que informa ao sistema qual modelo de tela está instalado no boot, veremos isso mais abaixo.
Se esse arquivo não estiver correto para a sua unidade, o portátil pode ligar normalmente — mas a tela fica preta, com faixas brancas, resolução estourada ou uma névoa acinzentada. Dá aquele frio na barriga achando que morreu. Eu passei por isso. Por isso, fazer backup do cartão SD original é obrigatório antes de qualquer coisa — mas vou falar e mostrar mais sobre isso adiante.
O coração do R36S/R36XX: o RetroArch
O RetroArch é o emulador universal que roda por baixo de tudo no R36S/R36XX. Todas as funcionalidades que você conhece na versão de PC estão aqui, incluindo os famosos shaders — filtros de tela que reproduzem efeitos visuais dos monitores originais.
Quer jogar Game Boy com aquele efeito de tela esverdeada original? Tem. Quer um filtro de televisão CRT no Super Nintendo, com aquela interferência nostálgica nos pixels? Também tem. É um diferencial muito legal.
Porém, cada sistema operacional disponível para o portátil libera apenas os cores (emuladores) e filtros compatíveis com o poder de processamento do R36S. Por isso, é importante manter o sistema sempre atualizado — a comunidade trabalha continuamente para otimizar os cores, reduzir engasgos e melhorar o desempenho.
O RetroArch também tem integração com o RetroAchievements, um sistema de conquistas para jogos clássicos. Para funcionar, ele precisa de conexão com a internet — e é aqui que o R36XX leva uma vantagem real sobre o R36S: o Wi-Fi embutido. No R36S original, você precisa de um adaptador USB conectado na porta OTG, que fica avantajado no portátil e se desconecta com qualquer batida errada. No R36XX, isso simplesmente não existe como problema.
Quer se aprofundar no RetroArch? Temos um Guia Fácil e Definitivo de como configurar o RetroArch e também um guia específico sobre como usar filtros shaders no RetroArch.
O que ele roda bem (e o que você deve evitar)
Aqui é onde as outras análises pecam. Vou ser direto.
Roda muito bem:
- Game Boy, Game Boy Color e GBA
- Super Nintendo — incluindo jogos com o chip Super FX, como Yoshi’s Island, Star Fox, Street Fighter Zero 2 e os Mega Man X2/X3
- NES e Master System
- PlayStation 1
- Arcades (CPS-1, CPS-2 e similares)
- PC-Engine
- PortMaster (ports de jogos Linux para o portátil, em 2D)
E detalhe, alguns jogos do Game Boy Advance e Super Nintendo são necessários trocar os núcleos (cores) que vem padrão no RetroArch que apresentem menos engasgos para rodar perfeito. Eu recomendo você testá-los para saber qual é o seu preferido. Para saber mais sobre, visite a sessão sobre núcleos no nosso Guia fácil para o RetroArch.
Evite ou tenha expectativas baixas:
- Nintendo 64 — engasga, tem glitches, cai de FPS constantemente
- PSP — alguns títulos são “jogáveis” mas exigem tempos de ajustes de core e configuração de pulo de quadros e coisas do tipo.
- Dreamcast — mesmo problema do N64
- PortMaster (ports em 3D mais pesadinhos)
- SEGA Saturn — nem tente…
- Nintendo DS — tecnicamente funciona, mas o layout de duas telas em uma tela pequena é sofrível na prática, exceto em jogos onde a segunda tela é opcional (Pokémon, Mario Kart), jogos em 2D funcionam melhores.
- Android — lento, esquenta o processador, drena a bateria, não compensa
A lista oficial de performance por sistema está no Wiki do R36XX — vale checar antes de montar sua biblioteca.
Os controles: o que é bom, o que não é
Os botões de ação (X, Y, B e A) são macios, silenciosos e têm relevo afundado, não corre risco de apagar a identificação deles com o tempo.
Os analógicos são bons para jogos de PlayStation e Arcades que usam movimentação fluida. Mas a posição deles faz com que o dedão se canse rápido em sessões longas. E não, não adianta comprar aquele grip impresso em 3D que aparece em vídeos patrocinados — ele fica feio, não resolve o cansaço e parece gambiarra.
Os botões direcionais são macios, mas em jogos de luta são horríveis. Esqueça soltar um Hadouken no Street Fighter sem errar. A graça de jogar luta no R36S é basicamente impressionar quem está do lado na fila do banco.
Os botões de ombro (L1, L2, R1, R2) são clicáveis, não são gatilhos analógicos. Fazem aquele “tec-tec” característico. Cumprem o papel, mas podem incomodar quem vem de controles mais modernos. No R36XX, o encaixe para os dedos indicadores ficou visivelmente melhor.
Atenção especial ao botão de reset: ele fica logo abaixo do botão power, no lado esquerdo (veja a imagem abaixo). Como o R36S se comporta como um computador, forçar um reset sem desligar o sistema corretamente pode corromper os dados do cartão SD. Já apertei o reset sem querer achando que estava colocando em modo de repouso. Faça contato visual com os botões antes de apertar qualquer coisa no lado esquerdo.
Bateria: sem ilusões
A bateria Li-Po 3.7V 3000mAh é removível — o que é ótimo para substituição futura. Mas não espere maratonas de jogatina.
- NES até Game Boy Advance: ~4h30
- PlayStation 1 ou PortMaster: ~3h45 a 4h
- Com Wi-Fi ativo (RetroAchievements, por exemplo): menos ainda
Não carregue com carregadores potentes (20W, 65W, 100W). Use um carregador simples de celular antigo ou a porta USB do computador/televisor. A bateria não foi projetada para carregamento rápido e pode apresentar problemas com carregadores modernos.
Também não recomendo jogar enquanto carrega — o portátil aquece mais e isso afeta a saúde da bateria a longo prazo.
O cartão SD: o ponto mais crítico de toda a experiência
O cartão SD que vem de fábrica é uma bomba. Simples assim. Para baratear o produto, colocam o cartão mais barato possível — e ele se corrompe fácil ou já vem com problemas.
- Faça backup completo do cartão original — jogue tudo em um Google Drive, OneDrive, HD externo. Os arquivos originais, especialmente os arquivos
.dtbna raiz (na partição “boot”), são únicos para a sua unidade. Você vai precisar deles em algum momento, pode ter certeza. - Compre um cartão SD de qualidade, de preferência Classe 10 ou A1/A2. Um cartão melhor significa sistema mais rápido, jogos iniciando mais rápido e menos engasgos em títulos mais pesados como PS1 e DS.
- Sobre os dois slots de cartão: o slot da direita (TF1-OS) é para o sistema operacional. O da esquerda (TF2-GAME, veja a imagem abaixo) é um extra para jogos. Na prática, um cartão de 32GB ou 64GB no slot do sistema já dá conta de toda a biblioteca até o GBA com folga. Só vale usar o segundo slot se você quiser uma biblioteca completa de PS1 ou jogos maiores.
Para não errar na escolha, use cartões de marcas confiáveis como SanDisk ou Western Digital, sempre Classe 10 ou A1. São fáceis de encontrar e o preço é acessível, são boas pedidas para começar.
Indicações de compraMinha saga: comprei, devolvi, comprei de novo
Em dezembro de 2025, comprei meu primeiro R36S no Mercado Livre. Veio bem embalado, com case, cabo USB-C e película, a marca do fabricante era a GOGOCAT. A primeira vista, essa versão era lindo. Mas logo vieram os problemas: o sistema operacional lento, engasgos nos jogos, botões travando, e uma linha verde sutil na tela que me incomodou.
Tentei instalar outros sistemas operacionais e nada funcionava direito. Pesquisando mais, descobri: era um clone. Não o original. Possivelmente nem o vendedor sabia.
Os clones do R36S são um problema real na comunidade. Fabricantes diferentes mudam o processador, a memória RAM (alguns até “enganam” o sistema dizendo ter 1GB quando têm 512MB), e às vezes até os drivers de tela. Com isso, boa parte dos sistemas operacionais fica incompatível ou com bugs sérios.
Devolvi, pedi reembolso, e o vendedor foi atencioso — cheguei a mandar uma carta escrita à mão junto ao produto explicando o que poderia ser.
A segunda tentativa foi no AliExpress, por recomendação do próprio vendedor. E foi lá que encontrei o R36XX: visualmente diferente, com Wi-Fi embutido, e — o mais importante — com os dois chips processadores visíveis nas fotos, indicativo do modelo original. Além da sua marca ser a original, nomeada de BOYHOM. Saiu até mais barato do que o R36S no Brasil, mesmo com os impostos.
Quando chegou: carregou rápido, sem engasgos, sem travamentos. Era isso que eu procurava!
Vale a pena comprar um R36S/R36XX?
Sim, se você:
- Já tem familiaridade com emuladores e gosta de fuçar configurações
- Quer um portátil para Game Boy, GBA, Super Nintendo e PS1 com qualidade de tela excelente
- Gosta de explorar sistemas operacionais, PortMaster e Rom Hacks
- Entende que vai precisar trocar o cartão SD e fazer backup do original
Talvez não seja para você, se:
- Quer comparar para você ou presentear alguém que não tenha paciência para configurar nada
- Espera jogar N64, PSP, Dreamcast e jogos mais pesados em 3D com fluidez
- Não quer ter que aprender um mínimo sobre como o sistema funciona
No final das contas, ele é o meu xodó. Pelo preço, pelo que entrega, pela comunidade ativa por trás — não tem rival.
E agora, qual sistema operacional usar?
Você já sabe o que o portátil é, o que ele entrega e o que evitar. Mas uma dúvida que aparece logo na sequência é: qual sistema operacional colocar nele? ArkOS, dArkOS, UnofficialOS, ROCKNIX… são muitas opções e cada uma promete ser a melhor.
Trouxemos aqui no blog um comparativo completo: testei 10 sistemas operacionais diferentes no R36XX e conto o que achei de cada um — sem papas na língua. Para ler, acesse: R36S e R36XX: Testei 9 sistemas operacionais e vou te contar a verdade sobre cada um
Nosso muito obrigado a você que leu até aqui. Essa análise levou mais de 6 meses para ficar pronta devido a todos os testes e estresse que fizemos esse portátil tão querido passar para entregar tudo sobre ele. Fique ligado que iremos postar mais dicas e como aproveitar melhor o seu R36S/R36XX!
Enquanto isso, tem dúvidas, quer que eu teste algum jogo específico, ou quer compartilhar sua experiência com o R36S/R36XX? Os comentários são todos seus!
Indicações de compra























